Bancadavip


Manuel Cajuda

U.Leiria

(POR) Liga Zon Sagres

Currículo de sucesso

O que se pode dizer de Manuel Cajuda como treinador? Tem o toque de Midas, tudo em que toca parece transformar-se em ouro. É um treinador astuto, inteligente e transdisciplinar. Os seus conhecimentos vão muito além da compreensão do jogo. É um treinador inovador e actualizado. Foi o primeiro treinador em Portugal a perceber a dimensão mental do jogo, utilizando na sua equipa um psicólogo. Há mais de vinte anos, chamaram-lhe louco. Hoje, todoslhe dão razão. Sempre somou aos seus conhecimentos uma visão tecnicista e uma visão especialista. É um visionário.

Muitas vezes foi contestado pelo valor das suas ideias e pela convicção com que as defende. Publicamente despreza a táctica como valor absoluto do jogo, mas na preparação das suas equipas é um tacticista puro. Costuma dizer que “quem só sabe de tácticas nada percebe de futebol” porque sempre entendeu que a interacção entre as várias ciências que envolvem o futebol pode modificar estratégias e sistemas tácticos.

Tem uma grande inteligência emocional, mexe com facilidade na cabeça dos jogadores, levando-os a crer que as suas possibilidades são ilimitadas. Um episódio denuncia a sua qualidade humana e dimensão emocional. Quando chegou a Guimarães deparou com um grupo de jogadores com baixa moral. Descrente e sem fulgor. Ao fim de dois jogos e duas derrotas, Manuel Cajuda achou que o rendimento da equipa não se alteraria apenas pela via do treino. Pediu a um colaborador que fizesse uma montagem vídeo, com entrevistas a familiares dos jogadores – mulheres e filhos. Nesse vídeo, os familiares apelaram ao coração dos jogadores e sobretudo demonstraram a sua confiança neles. Lá fora, nos estádios, ninguém acreditava nos jogadores, mas Manuel Cajuda quis passar uma mensagem diferente: «Era importante que eles soubessem que alguém, além de mim, acreditava neles. As suas famílias, as suas mulheres, os seus filhos, acreditavam neles».

O choque foi brutal. No dia do jogo seguinte para o campeonato, Manuel Cajuda reuniu os jogadores numa sala e mostrou-lhes o vídeo. Foram muitos os jogadores que choraram, foram todos os que sentiram uma motivação que nunca tinham sentido nas suas carreiras. O Vitória de Guimarães ganhou o jogo e não voltou a perder até ao fim do campeonato. E subiu de divisão. Curiosa a justificação de Cajuda no final. “Subimos por questões filosóficas e psicológicas e não tanto por metodologia de treino e por tácticas” E no ano seguinte chegou ao terceiro lugar da Liga Sagres. Destaques:

S.C. Braga
Foi o primeiro treinador do clube a atingir os primeiros lugares do campeonato. Dois quartos lugares num clube no ano anterior há sua chegada, não desceu de divisão por um ponto. Conseguiu apurar o Braga para uma competição europeia, pela primeira vez em vinte anos. Considerado pelos adeptos do SC.Braga um dos melhores treinadores de sempre do clube.

Vitória de Guimarães
Grande rival do SC Braga, nem por isso a sua ligação afectiva o prejudicou em Guimarães. O Vitória é um dos melhores clubes portugueses, com adeptos muito exigentes. É considerado um herói na cidade. Foram os adeptos que o vestiram de D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, “O Conquistador”, pelo mérito do seu trabalho no clube.

Manuel Cajuda é um treinador que tem uma grande inteligência emocional
Quando chegou a Guimarães, para substituir Norton de Matos, o clube atravessava a sua pior fase de sempre. Tinha descido à Segunda Divisão e estava mais perto de voltar a descer à Terceira Liga do que voltar a subir à Liga Sagres. A sua intervenção, primeiro no plano emocional – tem grande inteligência emocional – e depois no plano estratégico salvaram o clube. A equipa fez, nesse ano, uma recuperação sensacional e conseguiu a subida à Primeira Liga. No ano seguinte, novo e retumbante sucesso. Consegue o terceiro lugar do campeonato, à frente do Benfica e apenas a dois pontos do Sporting, segundo classificado. Melhor classificação de sempre do clube e apuramento histórico para a terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Teria entrado na Champions, se não fosse um roubo indescritível, em Basileia, da equipa de arbitragem. Um golo limpo, anulado a três minutos do fim do jogo na Suíça, tirou a Manuel Cajuda a possibilidade de se estrear na principal competição mundial de clubes.

União de Leiria
Mais um clube que tem a marca indiscutível de Manuel Cajuda. O quinto lugar alcançado e a presença na final da Taça de Portugal fazem desta época orientada por Manuel Cajuda como a melhor da história do clube no campeonato português. Mais assinalável se torna o facto, considerando que Manuel Cajuda sucedeu a José Mourinho no comando técnico da equipa da União de Leiria.

Marítimo
Mais um clube e mais uma marca histórica. Melhor classificação do Marítimo dos últimos quinze anos, com uma qualificação para as competições europeias. Poucos treinadores na história do clube conseguiram tão bons resultados como Manuel Cajuda. Depois dele, outros treinadores de prestígio não conseguiram igualar a sua pontuação no campeonato nem o carisma entre os adeptos.

Subidas de Divisão
Durante a sua carreira, Manuel Cajuda foi o treinador, em três ocasiões diferentes de outros tantos clubes na Liga de Honra. Em todas elas subiu de divisão. Assim foi no Torriense, na U. de Leiria, e no Vitória de Guimarães. No caso do Torriense, tal sucesso foi alcançado mais de um quarto de século (27 anos) depois da última participação na primeira divisão.

Zamalek
Quando chegou ao clube africano do século, o Zamalek estava em crise profunda. Na época anterior, o Zamalek tinha-se afundado na sua pior classificação de sempre. Homem habituado a reconstruir equipas, Manuel Cajuda conseguiu levar o clube egípcio ao segundo lugar do campeonato, atrás do Al Ahly e à final da Taça do Egipto, que também perdeu para o seu rival campeão. No Egipto todos reconheceram que era impossível conseguir melhor, já que o desnível entre o Zamalek e o Al Ahly era enorme. E a melhor época do Zamalek nos últimos 10 anos.

Sharjah
É o clube actual de Manuel Cajuda. O primeiro clube a vencer o campeonato nos Emiratos Árabes Unidos, mas que se afundou nos últimos lugares do campeonato, nas últimas épocas. Mais uma vez, pediram a Manuel Cajuda que começasse tudo de novo. O objectivo é refundar o clube e dar-lhe, de novo, o prestígio que perdeu. Na primeira época, o sucesso. Nos últimos onze jogos da época anterior à entrada de Manuel Cajuda, o Sharjah perdeu nove, empatou um e só ganhou outro. Salvou-se da descida apenas na última jornada. Na primeira época do treinador português, tudo foi diferente. A cinco jornadas do fim conseguiu mais três pontos que a pontuação da equipa na época anterior, fixou-se no sétimo lugar do campeonato e colocou a sua equipa a praticar o melhor futebol da Liga. Ao fim de três meses no Sharjah, o presidente do clube propôs-lhe a renovação de contrato por mais dois anos. É o toque de Midas de Manuel Cajuda, desta vez no deserto arábico.

José Marinho